Raro corante citado na Bíblia é encontrado em sepulturas romanas de bebês

Arqueólogos anunciaram a descoberta de vestígios da rara púrpura de Tiro, corante citado diversas vezes na Bíblia, em sepulturas de bebês romanos encontradas em York, na Inglaterra. O achado, divulgado pela Universidade de York no fim de abril, é considerado um dos poucos registros desse pigmento já encontrados no Reino Unido.

Os pesquisadores analisaram restos mortais e fragmentos de tecidos preservados em dois sepultamentos que datam do fim do século III ou início do século IV d.C. Testes químicos identificaram a presença da púrpura de Tiro, um corante extremamente valioso no período romano.

Segundo a Universidade de York, “os bebês foram envoltos em um fino tecido de púrpura tíria, adornado com fios de ouro — um tecido do mais alto status e luxo conhecido no mundo romano”.

A instituição afirmou que a descoberta “sugere que os bebês eram de famílias de posição social significativa”, já que esse tecido era “normalmente reservado para imperadores e membros da aristocracia”. Durante o período romano, o corante chegou a valer até três vezes mais que o ouro.

A púrpura de Tiro era produzida a partir da trituração de moluscos do gênero Murex. O processo era complexo e semelhante ao usado para fabricar o tekhelet, tradicional corante azul utilizado no judaísmo para tingir os cordões do tzitzit.

O raro pigmento também aparece em passagens da Bíblia. Em Atos 16:14, é citada uma comerciante de tecidos de púrpura. Já em Marcos 15:17, Jesus foi vestido com um manto dessa cor pelos soldados romanos como forma de zombaria. O texto diz: “E vestiram-no com um manto de púrpura; e, trançando alguns espinhos para fazer uma coroa, puseram-na sobre ele.”

Os tecidos permaneceram preservados graças a um costume funerário romano. Conforme explicou a universidade, os corpos eram cobertos com gesso líquido, que endurecia com o tempo e protegia os fragmentos de tecido, além dos corantes e impressões.

A professora Maureen Carroll, diretora do projeto “Seeing the Dead” no Departamento de Arqueologia da Universidade de York, destacou a importância da descoberta. “Pela primeira vez, temos a confirmação do uso desse corante caro na York romana, indicando que os habitantes ricos da cidade tinham acesso a mercadorias caras e exóticas vindas do outro lado do império.”

Ela acrescentou: “Esta descoberta notável revela muito sobre a importância das crianças na York romana e a disposição da família em proporcionar ao seu bebê a melhor despedida possível em circunstâncias trágicas.”

A pesquisadora Jennifer Wakefield também comentou os resultados da análise. “As variedades de roxo nem sempre eram visíveis na superfície do gesso, mas a análise química nos presenteou com resultados surpreendentes.”

Segundo a Universidade de York, esta é a primeira vez que vestígios da púrpura de Tiro são encontrados em restos têxteis romanos na cidade e um dos raríssimos registros desse corante já identificados em território britânico.

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